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Avaliação
do uso de genes de seleção
A cada dia
consolida-se a certeza de que necessitamos de plantas, animais ou
microorganismos com novas características, que lhes permitam
crescer e multiplicar dentro das condições atuais da
Terra e de forma a suprir o consumo crescente, agora e no futuro,
principalmente no que concerne à alimentação da
Humanidade. Hoje, a melhor e mais rápida maneira de se atingir
esse objetivo é pela modificação genética
dos alimentos. Ou seja, utilizado técnicas que permitem
inserir uma nova característica no patrimônio
genético de uma espécie. Isto é a engenharia
genética e os organismos por ela modificados são
conhecidos como OGMs (Organismos Geneticamente Modificados)
ou, mais simplesmente, transgênicos. Por ser tecnologia nova, o
impacto desses organismos sobre a saúde humana e o meio
ambiente devem e estão sendo estudados e avaliados em diversas
áreas, que buscam conhecer e normatizar globalmente a
criação, produção,
distribuição e consumo dos transgênicos.
Durante o
processo de modificação genética de plantas e
outros organismos, genes marcadores são normalmente usados, de
modo a facilitar a seleção e identificação
das células geneticamente modificadas contendo o gene de
interesse, entre a vasta maioria de células não
transformadas no organismo hospedeiro. Genes marcadores que conferem
resistência a antibióticos específicos são
freqüentemente usados com esse propósito.
Antibióticos
são indispensáveis para combater as doenças
infecciosas de homens e animais e é imperativo preservar a
eficácia destes medicamentos. A resistência aos
antibióticos constitui grave problema de saúde
pública mundial, aumentando a morbidade e mortalidade daquelas
doenças e a conseqüente diminuição da
qualidade de vida e aumento das despesas com a saúde e
cuidados médicos.
A
resistência aos antibióticos e a tentativa de deter os
diferentes fatores que podem levar ao seu desenvolvimento exigem
abordagem multidisciplinar e ação coordenada em
nível internacional. Dada a dimensão global do
problema, a Comunidade Européia, a Organização
Mundial da Saúde (OMS), a Organização das
Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO) e o Instituto Internacional das Epizootias (OIE)
têm elaborado estratégias para avaliar riscos e incluir
ações de controle e de prevenção como,
por exemplo: a vigilância dos casos, em pessoas e animais, de
resistência aos antibióticos; a proibição
do acréscimo de antibióticos em gêneros
alimentícios como rações para animais. Os
transgênicos estão na pauta de discussão e estudo
em todo o mundo. As culturas de plantas transgênicas, que foram
criadas usando antibióticos como marcadores de
seleção desde 1998, estão aumentando e
várias entidades internacionais têm discutido e proposto
sugestões de procedimentos e legislação visando
a biossegurança.
No dia 19 de
abril deste ano, o EFSA (European Food Safety Authority),
órgão responsável pela segurança
alimentar da Comunidade Européia, apresentou um documento com
alguns conselhos sobre o uso de antibióticos como marcadores.
Na perspectiva de uma avaliação de risco, os estudiosos
internacionais consideram a possibilidade de acontecer o que
denominamos de transferência horizontal, ou seja, o
fenômeno que permite que genes, neste caso os
antibióticos marcadores, passem destas plantas para os
microrganismos do meio ambiente. Essa teórica possibilidade
é considerada muito improvável, mas, caso
aconteça o raro evento, seu impacto no meio ambiente deve ser
estimado, mais especificamente, na importância do tratamento
eficaz com antibióticos específicos em homens e
animais. Em outras palavras, se consumidores de plantas e alimentos
transgênicos desenvolveriam resistência aos
antibióticos específicos usados em sua
criação. O EFSA elaborou o documento levando em conta
os riscos potenciais existentes para o meio ambiente e para evitar
possíveis problemas no tratamento com antibióticos,
classificou a plantas geneticamente modificadas em três grupos,
segundo os antibióticos nelas usados como marcadores. Baseada
nessa classificação, segue a recomendação
para sua produção e consumo.
O primeiro
grupo inclui as plantas que contêm genes de resistência a
antibióticos como kanamicina e neomicina que, além de
já estarem amplamente distribuídas entre as
bactérias do solo e entéricas, não são de
grande relevância no tratamento de enfermidades humanas e
são usadas com restrição na veterinária.
Estes genes são utilizados há mais de 13 anos no
desenvolvimento de plantas transgênicas sem nenhum relato de
problemas de biossegurança. Outro gene incluído neste
grupo codifica uma proteína que inativa a higromicina, que
não é utilizado na antibioticoterapia humana. As
plantas deste grupo podem ser testadas em campos de
experimentação ou chegar ao mercado sem nenhuma restrição.
O segundo
grupo deve ser restrito somente para testes de campo e não
devem ser usados em plantas que irão chegar ao mercado. Este
grupo abrange plantas contendo genes que conferem resistência a
antibióticos, presentes em microrganismos dispersos no
ambiente e que são usados como terapêutica em
áreas definidas da medicina humana e veterinária, como
cloranfenicol, ampicilina, estreptomicina e espectinomicina.
Finalmente, o
terceiro grupo contem genes de resistência a antibióticos
de alta relevância e fundamental importância no
tratamento de patologias em homens e animais, como a amicacina e as
tetraciclinas. Independentemente das considerações
sobre o real risco à saúde, estes genes devem ser
evitados no genoma das plantas transgênicas, e as que os
contêm não podem ser testadas em campos de
experimentação e nunca deverão chegar ao mercado.
A
possibilidade de problemas com resistência a antibióticos
está levando a buscas para substituí-los por outros
tipos de genes marcadores. Já estão sendo testados
outros genes que permitem selecionar e identificar as células.
Para não estacionar o avanço biotecnológico, os
órgãos reguladores da biossegurança
internacional vêm apontando diretrizes sobre os procedimentos e
espécies já existentes e as novas a serem criadas, que
permitem e incentivam a constante busca por práticas para o
uso seguro dos OGMs.
Vasco
Azevedo é veterinário, PhD em Genética Molecular
de Microorganismos, pesquisador da Universidade Federal de Minas
Gerais (UFMG) e conselheiro do CIB
Fonte: CIB
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