As opiniões contidas neste documento são de inteira responsabilidade da autora.

"Transgênicos: agilidade para a pesquisa nacional"

Por Maria Thereza Pedroso .
Em 18 de dezembro de 2003 - versão 1

I. Introdução

No texto "Transgênicos e Soberania Tecnológia Agropecuária", concluo que apesar de termos alguns importantes exemplos de transgênicos desenvolvidos pela maior empresa pública de pesquisa agropecuária, a Embrapa, constatam-se problemas relativos à falta de agilidade no licenciamento ambiental para o desenvolvimento de experimentos de campo. Manter o país sem desenvolver seus próprios transgênicos é suicídio tecnológico e econômico e acaba servindo aos interesses de empresas transnacionais. Essa constatação e conclusões obtidas a partir das audiências públicas na Comissão Especial de Biossegurança , ocorridas nas últimas semanas, e do Seminário do PT sobre transgênicos, do último dia 4/12/03, deram origem às reflexões contidas neste documento.

II. Algumas informações pontuais sobre pesquisa com transgênicos

1. Há importantes exemplos de uso da engenharia genética para a saúde humana, para a agricultura e para a indústria, que já fazem parte de nosso cotidiano ou estão em processo de desenvolvimento em laboratórios, tais como:

- plantas resistentes aos herbicidas e com características que impedem o ataque de insetos;
- plantas com resistência a fungos, bactérias e vírus, e a estresses abióticos como a seca;
- plantas com qualidades físico-químicas e nutricionais, que aumentam o valor agregado do produto final (por exemplo: maior valor nutricional de vários alimentos, baixo teor de ácidos graxos saturados no girassol, alterações nos teores de glútem e amido no trigo, alimentos com características que reduzem a alergenicidade que certas substâncias causam em alguns grupos de pessoas);
- plantas que desempenharão o papel de vacinas, alimentando e, ao mesmo tempo, combatendo doenças (bananas com vacina contra a pólio, bichos-da-seda que sintetizam colágeno humano, batata com vacina comestível contra o HPV, um dos vírus causador do câncer de colo de útero, arroz que poderá substituir as injeções de insulina em diabéticos);
- insulina;
- vacina contra hepatite B;
- interferons (importantes substâncias utilizadas no tratamento de câncer e de infecções virais, que só puderam ser fabricados largamente e a baixos custos, com a utilização de bactérias transgênicas);
- microorganismos transgênicos que contribuem para a produção de cerca de 400 produtos de uso médico (como por exemplo: vitamina C; os Fatores 8 e 9 sangüíneos, usados no tratamento de hemofílicos; e alguns medicamentos contra a Aids); e
- biofábricas (plantas com aplicação na indústria de medicamentos, rações e hormônios).

2. Equipes altamente qualificadas da comunidade científica nacional realizam estudos e desenvolvem projetos pioneiros em todo o mundo, mapeando cromossomos, identificando genes funcionais, analisando a biossegurança e avaliando impactos ambientais. O Brasil adquiriu, nessa matéria, capacitação comparável aos melhores centros de pesquisa do Planeta .

3. Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), a partir de uma bactéria transgênica, conseguiram fabricar, pela primeira vez, uma vacina contra a diarréia infantil.

4. A Embrapa, principal empresa de pesquisa agropecuária do setor público, está desenvolvendo alguns importantes transgênicos para nossa agricultura, muitos deles, voltados para a pequena produção :

- Feijão com resistência ao vírus do mosaico dourado (que é um dos maiores inimigos da cultura do feijão na América do Sul, causando grandes perdas no Brasil) e ao caruncho, praga que ocorre no armazenamento e prejudica principalmente o pequeno produtor;
- Batata com resistência a um vírus cuja ação reduz o porte da planta e das folhas e, conseqüentemente, afeta a produção;
- Mamão com resistência ao vírus da mancha anelar. No Brasil, o vírus da mancha anelar vem comprometendo seriamente a produção de mamão no Sul da Bahia e no Espírito Santo;
- Alface com resistência aos fungos que causam a podridão das folhas;
- Algodão com resistência a herbicidas, a insetos (gene Bt) e a doenças fúngicas e bacterianas. A Embrapa já possui genes isolados para resistência ao bicudo do algodoeiro e a lagarta que ataca essa cultura; e
- Soja com hormônio do crescimento; sem um fator antinutricional denominado fitato que, entre outros fatores, imobiliza o fósforo, fazendo com que não seja aproveitado na alimentação; com proteínas antimicrobianas resistentes a cerca de seis doenças causadas por fungos e bactérias que atacam essa cultura; e com resistência à seca.

5. Poucas pessoas sabem, mas a Embrapa está isolando dois genes, que ocorrem em inúmeras plantas, um deles tem resistência ao glifosato e o outro ao glifosinato (princípios ativos de herbicidas), com um método diferente daquele utilizado pela Monsanto na soja RR. Esses genes, na seqüência, serão inseridos em variedades de diversas plantas de uso comercial da Embrapa. Dessa forma, a Embrapa poderá apresentar para o licenciamento comercial sua semente com patente própria, em dois anos, caso o processo de pesquisa com transgênicos seja desburocratizado e competir mundialmente com a Monsanto em relação à semente de soja com resistência ao glifosato .

6. O governo chinês está acelerando sua pesquisa em biotecnologia e certamente frustrará as ambições comerciais das empresas ocidentais de agrobiotecnologia. A China investe 115 milhões de dólares a cada ano em biotecnologia agrícola, a Índia investe 25 milhões e o Brasil, de 12 a 14 milhões . Cuba investe U$ 60 milhões por ano em pesquisa em biotecnologia e desenvolve inúmeros transgênicos.

7. Há mais de cinco anos, na China, a Monsanto e a Delta Pine lançaram o algodão transgênico Bt, com resistência a insetos. Essas empresas tinham, nesse país, o monopólio dessa tecnologia, o que fez com que os royalties (ou taxa tecnológica para o uso desse algodão Bt) fosse inacessível aos pequenos agricultores. O setor público agropecuário chinês (a "Embrapa" chinesa) desenvolveu um algodão Bt nacional e com métodos e genes próprios. Com a oferta da semente de algodão Bt da empresa pública agropecuária chinesa, houve a quebra do monopólio e, por conseqüência, uma drástica redução do preço dessa semente, proporcionando o acesso de 4 milhões de pequenos produtores a essa tecnologia. Para termos uma noção, no mundo, há cerca de 5 milhões de produtores transgênicos. Ou seja, aproximadamente 75% de produtores de trangênicos são pequenos produtores de algodão chineses !!! Houve também uma redução de 70% no uso de inseticidas e conseqüente redução de intoxicações por agrotóxicos (esses agricultores aplicam o veneno manualmente) .

8. Pesquisadores, entre eles, o Dr. Franco Lajolo , apresentaram à sociedade brasileira, no dia 3 de dezembro de 03, "Carta em Defesa da Ciência Natural", em que afirmam que o Projeto de Lei de Biossegurança encaminhado pelo governo ao Congresso Nacional confunde o saber técnico e científico com as responsabilidades sociais e políticas, e que "o conhecimento científico exige autonomia das equipes de pesquisadores, para tomar decisões que, quanto mais rápidas e consistentes, mais a Nação afirmará sua soberania frente ao poder transnacional".

9. O pesquisador Hernan Chaimovich publicou artigo na Folha de São Paulo, no dia 28 de outubro de 2003, em que afirma que parcelas mais bem informadas da sociedade brasileira estão perplexas quanto à diversidade de opiniões individuais de cientistas sobre transgênicos, levando a crer que não há consenso, na comunidade científica, sobre segurança alimentar ou riscos ecológicos do uso de plantas transgênicas. Todavia, nas instituições representativas das comunidades nacional e internacional dos cientistas, os consensos são evidentes e, em geral, pouco divulgados na mídia. As academias nacionais de ciências são entidades representativas da comunidade dos cientistas e, em geral, são independentes de interesses e governos.

10. Relatório preparado sob os auspícios da Royal Society de Londres, Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, Academia Brasileira de Ciências, Academia de Ciências da China, Academia Nacional de Ciências da Índia, Academia de Ciências do México e Academia de Ciências do Terceiro Mundo afirma que "alimentos produzidos através da tecnologia GM podem ser mais nutritivos, estáveis quando armazenados e, em princípio, podem promover a saúde", e que "novos esforços do setor público são necessários para criar plantações de transgênicos que beneficiem agricultores pobres em nações em desenvolvimento".

11. Estudo feito pelo deputado Nelson Proença, na Subcomissão Especial destinada a analisar a situação dos alimentos transgênicos , verificou que não há problema de atraso na autorização ou qualquer óbice burocrático, no caso de pesquisas na área médica. Mas na área de agricultura, mais especificamente, para a autorização de ensaios de plantas em campo, as dificuldades são muitas.

12. O deputado Nelson Proença descreve

"Campos experimentais sem plantio, aguardando o cumprimento de ritos burocráticos expressados por inúmeros pareceres, licenças e autorizações das autoridades públicas que não haviam ainda sido emitidos, como se a natureza pudesse esperar pelo cumprimento de tais rituais, como se a semente pudesse germinar tão logo fosse carimbado o papel, sem levar em conta as condições climáticas, o sol, a chuva, o comprimento do dia."

13. O licenciamento para experimento em campo da Embrapa com mamão transgênico, em Cruz das Almas, na Bahia, com objetivo de desenvolver uma semente resistente ao vírus da mancha anelar, transmitida pelo pulgão, inseto comum na agricultura demorou três anos. Somente no Governo Lula, o experimento passou para uma segunda fase, quando as plantas foram transferidas da casa de vegetação para o campo. Como o licenciamento demorou muito tempo, por pouco não se perderam as plantas e todos os anos acumulados de experimentação .

14. Foram exigidos, para esse experimento com mamão transgênico, a construção de uma guarita e a manutenção de um vigilante 24 horas por dia. O cálculo para a construção de uma guarita e a manutenção de um vigia 24 horas por dia para um experimento de campo com feijão resistente ao mosaico dourado é de R$ 30.000,00. Há também a exigência de fazer um levantamento socio-econômico e um programa informação aos moradores na área de influência (raio de alcance do pólen). No caso do mamão, a área de influência é de 3 Km. Se fosse feito na Embrapa Cenargen , localizado no final da Asa Norte, em Brasília, abrangeria, muito provavelmente, a Granja do Torto, assim até o presidente Lula teria que participar do programa de informação aos moradores da área de influência externa.

15. Há quatro casos de projetos de pesquisa da Embrapa paralisados devido à legislação vigente :

(A) A Embrapa montou um projeto em rede envolvendo vários centros da empresa e de Universidades Públicas para avaliar a segurança ambiental e alimentar dos produtos transgênicos desenvolvidos por essa empresa. Esse projeto foi financiado pela Finep com recursos de aproximadamente 2 milhões de reais e encontra-se paralisado há mais de um ano, por falta de licenciamento;

(B) Um feijão resistente ao vírus do mosaico dourado foi gerado na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, e espera por uma autorização do Ibama e da Anvisa há três anos, para ser plantado no campo.

(C) Foram desenvolvidas, pela Embrapa Cenargen, aproximadamente 100 linhagens de banana transgênicas que seriam transferidas para Embrapa Mandioca e Fruticultura, em Cruz das Almas, na Bahia, para serem testadas contra o fungo sigatoka negra e determinar quais destas linhagens são resistentes. As linhagens tinham que ser multiplicadas em campo para serem enviadas para a Bahia. Como o tempo para obtenção dos registros para a liberação de experimento em campo é muito maior do que o tempo de sobrevivência das bananas em casa de vegetação, as linhagens morreram! Esse ano, cientistas indianos publicaram artigo descrevendo a obtenção de bananas resistentes à sigatoka negra, usando exatamente a mesma estratégia da Embrapa. Ou seja, a Embrapa perdeu a possibilidade de patentear uma variedade de banana resistente à sua principal doença fúngica.

(D) Um convênio com UFPel, Embrapa e Ingebi (Argentina) permitiu o desenvolvimento de clones de batata imunes a um vírus responsável por perdas de até 80% da produção. No entanto, não puderam ser testadas em campo, pois o Ibama e a Anvisa ainda não forneceram o Registro Especial Temporário (RET). O pedido foi feito há um ano. O Centro de Engenharia Genética de Havana (Cuba) fez uma parceria com a Embrapa, em 1998, em que foram trocados genes para introduzir em batata. A Embrapa forneceu genes de resistência a vírus e o centro cubano, genes de resistência a fungos. Nossos experimentos estão paralizados e os experimentos cubanos já foram testados em campo e já estão em fase de análise de biossegurança para comercialização, provavelmente, em 2004.

16. Apesar de a pesquisa com batata estar estagnada, no projeto de biossegurança da Embrapa, estima-se que a área para o experimento em campo seja de 0,45 hectares por ano para a região de Brasília; de 0,3 hectares por ano para a região de Pelotas e de 0,3 hectares por ano para a região de Canoinhas. A área plantada com batata no Brasil é de 150.000 hectares (já foi de 200.000 hectares). A área para a pesquisa da Batata é infinitamente menor que a área de produção. Esse é um bom exemplo da diferença de tamanho entre área produção e área de experimentação. Por outro lado, nos experimentos, intrinsecamente, são maiores os controles e cautelas adotados pelas instituições de pesquisa.

17. Segundo o advogado Antônio José Monteiro , em 1998, foi dado o primeiro parecer favorável para o plantio comercial de uma planta transgênica no Brasil. A CTNBio avaliou os dados científicos do produto e considerou que ele é equivalente à soja tradicional e não representa risco ao meio ambiente nem para a saúde humana e animal, dispensando a realização de EIA/Rima, de acordo com o Decreto 1.752/95. Desde então, uma liminar, confirmada por sentença judicial em ação movida por ONGs proibiu a liberação de transgênicos sem a realização prévia do EIA/Rima. Com a legislação atual, não sabemos quem dá a palavra final sobre a biossegurança dos transgênicos (CTNBio ou os Ministérios). No Tribunal Regional Federal, a relatora Selene Maria de Almeida já se pronunciou em favor da CTNBio e da liberação da soja transgênica, mas ainda faltam as decisões dos outros juízes, que não têm prazo para concluir o julgamento. Quem perder ainda poderá recorrer ao Superior Tribunal de Justiça e ao Superior Tribunal Federal. Caso o TRF derrube a sentença judicial, a soja transgênica estará legalizada, pelo menos temporariamente, até que a autoridade da CTNBio seja confirmada pela Justiça.

18. O PL 2.905/97, do deputado Fernando Gabeira, que "impõe condições para a comercialização de alimentos geneticamente modificados" foi apresentado em março de 1997, seguindo, inicialmente, a tramitação pelas comissões técnicas. Como existiam outros PLs tratando do mesmo tema, foi instalada, em maio de 2001, a Comissão Especial destinada a dar parecer sobre esse PL e seus apensados. O relator foi o deputado Confúcio Moura, que apresentou um substitutivo. O Partido dos Trabalhadores manteve-se contrário ao seu substitutivo, principalmente porque o substutivo oferecia caráter conclusivo à CTNBio tanto para a pesquisa como para a produção comercial; e porque suprimiu um artigo do substitutivo anteriormente proposto, que, basicamente, acrescentava quatro novos dispositivos à Lei nº 8.974/95 (Lei da Biossegurança), que cuida dos "crimes contra a biossegurança". Além disso, não havia, nesse substitutivo, a criação de uma instância reguladora, como há no PL 2.401/03 do Poder Executivo (No caso, o CNBS - Conselho Nacional de Biossegurança).

19. Com a aprovação do PL 2.401/03 do Poder Executivo eliminaremos o emaranhado legislativo deixado pelo governo anterior, que tanto dificulta a adequada regulamentação do tema e a execução dos procedimentos de análise de riscos dos transgênicos para a saúde da população, para o meio ambiente e para o desenvolvimento socio-econômico do país.

20. O PL 2.401/03 tem alta precisão e maior clareza nas atribuições de cada órgão. Todavia, não oferece tratamento diferenciado à pesquisa.

21. O Ibama publicou Instrução Normativa, no último dia 8, sobre procedimentos para a autorização de licença ambiental de atividades ou empreendimentos de pesquisa em campo que envolvam organismos geneticamente modificados (OGM) e seus derivados destinados à agricultura, alimentação humana e animal. Essa Instrução Normativa mantém muitas exigências que poderão acarretar na lentidão da implantação dos experimentos de campo, tais como, o Programa de Informação aos Moradores da Área de Influência Externa e o Levantamento socio-econômico nas Áreas de influência.

22. Há alguns dias, pesquisadores da Embrapa elaboraram proposta para o substitutivo ao PL 2.401/03 do Poder Executivo, com o objetivo de evitar que a pesquisa agropecuária nacional continue enfrentando a lentidão da liberação para os experimentos de campo. De uma forma geral, a proposta visa identificar e distinguir as atividades relacionadas à pesquisa daquelas com a finalidade comercial, propiciando um tratamento diferenciando. A proposta é que a CTNBio seja vinculante e conclusiva para os casos de licenciamento da pesquisa. Sua composição deverá garantir que todos os membros indicados tenham a devida capacidade técnica e experiência profissional, com relação à matéria, uma vez que suas decisões deverão ser sempre baseadas em aspectos técnicos. As indicações dos membros devem ser feitas por instituições de pesquisa legalmente constituídas.

23. O deputado Nelson Proença, em seu relatório sobre a Situação dos Alimentos Transgênicos, afirma que

"afora algumas poucas vozes obscurantistas, absolutamente minoritárias, não há quem defenda a paralisação de atividades de pesquisa que promovam o desenvolvimento tecnológico. No entanto, entre o discurso e a prática, há uma grande distância e, muitas vezes, o excesso de exigências e de burocracia a atender tem sido um entrave prático e concreto ao adequado andamento dos projetos de pesquisa. Assim, determinados órgãos públicos têm representado entrave ao desenvolvimento tecnológico, muitas vezes contrapondo-se, na prática, a seu próprio discurso"

24. O PL 2.401 não trata das características que são introduzidas, mas da forma como essas características são introduzidas. Por exemplo, a Basf desenvolveu um arroz resistente a um herbicida por mutagênese química (método utilizado há décadas, no Brasil). No entanto, se a mesma característica for introduzida por transgenia passa a ser regulada por esse PL. Especialmente, o exemplo do arroz resistente ao herbicida é bem mais problemático que a soja transgênica RR. A soja não possui parentes silvestres no Brasil e é autógama (possui polinização fechada ou autofecundação). O arroz possui parentes silvestres com características de ervas daninhas no Brasil, como é o caso do arroz vermelho, erva daninha incidente na produção do arroz comercial, principalmente no Sul do país, além de ser uma planta alógama (possui sua polinização aberta ou cruzada). Dessa forma, se o agricultor plantar esse arroz, possibilitará a transferência dessa característica para o arroz vermelho, desenvolvendo uma erva daninha resistente ao herbicida, podendo gerar uma super-praga .

25. Na Embrapa Cenargen há três sequenciadores de DNA (que descrevem o código genético de qualquer organismo vivo), o que significa uma boa infra-estrutura para esse tipo de investigação e 100 pesquisadores com doutorado em universidades públicas do Brasil e do mundo, com bolsas financiadas pelo nosso governo. Todavia, os recursos de custeio para descrever os códigos genéticos ainda são muito baixos. Falta dinheiro para o contrato de manutenção desses sequenciadores de DNA e compra de produtos (como enzimas de restrição, que cortam o DNA em locais específicos, kits de biologia molecular para realizar as reações de sequenciamento, etc.)

26. Pesquisadores do Cenargen apresentaram projeto de pesquisa, mas ainda não obtiveram financiamento, com o objetivo de inserir um gene de resistência à seca em três plantas (feijão, feijão-de-corda e mandioca), ao custo de 180 mil reais por ano, durante três anos, utilizando a infra-estrutura desse centro. Após o desenvolvimento desses transgênicos, essa característica será inserida nas diversas cultivares da Embrapa por cruzamento e retrocruzamento. Ou seja, por melhoramento convencional . Isso quer dizer que as cultivares da Embrapa poderão preservar sua diversidade genética.

27. Uma importante proposta apresentada, na Comissão Especial de Biossegurança, foi a criação de uma empresa de economia mista, vinculada à Embrapa, ao CNBS, ao SIB e ao sistema nacional de assistência técnica e extensão rural, nos diversos ecossistemas brasileiros, com a função de fomentar a biotecnologia nacional, ser uma encubadora de empresas e fazer a gestão de uma rede de pesquisa para articular de maneira mais sistemática, as pesquisas com transgênicos para a área de saúde e agricultura que se fizerem necessárias e que garantirão nossa soberania tecnológica.

28. No primeiro semestre de 2003, o presidente Lula demonstrou para a sociedade brasileira a importância de escutar a Embrapa, ao receber pesquisadores dessa empresa que apresentaram a potencialidade da transgenia para a agricultura brasileira. Anteriormente, o tema era difundindo, no Brasil, principalmente por entidades que se opõem aos transgênicos, que costumam utilizar argumentos europeus.

29. Apesar de, na Europa, ocorrer subsídio agrícola, em muitos de seus países, a agricultura não é mais a atividade principal ou exclusiva do campo. As seguintes características do debate sobre os transgênicos na Europa são notáveis:

(A) As atividades em expansão são serviços, sobretudo relacionados com o turismo e com empresas de alta tecnologia, que implicam em alto grau de especialização e mão-de-obra qualificada;
(B) A agricultura é estimada mais como um bem cultural e ambiental, do que simplesmente atividade econômica;
(C) Os europeus preocupam-se com o aumento de riscos dos alimentos, como o ocorrido com a vaca louca;
(D) Alguns consumidores organizados alemães apelidaram os alimentos transgênicos de "Frankenfood";
(E) A grande maioria dos europeus resiste ao modelo norte-americano de produção agrícola;
(F) Os alimentos transgênicos são considerados por eles símbolos da homogeneidade e uniformidade alimentícias, contra as quais hão de lutar;
(G) Muitos mantêm forte resistência, provavelmente sobre uma base religiosa cristã e judaica para tudo o que não é natural em sua percepção;
(H) É importante demonstrar que o Velho Continente se constitui numa alternativa válida como modo de vida e de desenvolvimento;
(I) A Europa não precisa aumentar sua produtividade de alimentos;
(J) Os Partidos Verdes na Europa passaram a ser considerados, por grande parte da população, como únicos garantidores da ética do progresso e se autodefiniram como únicos e legítimos representantes das gerações futuras de acordo com o desenvolvimento sustentável e uma de suas bandeiras é a luta contra os transgênicos .

30. Recentemente, cientistas brasileiros ficaram assombrados com o resultado da investigação sobre um incêndio ocorrido, em novembro, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O fogo, no qual foi consumido um laboratório de pesquisa de transgênicos, foi criminoso. No relatório da investigação da Polícia Federal, a hipótese inicial - de curto-circuito - foi descartada. O laudo continha até elogios à segurança do sistema elétrico do prédio. Uma das salas afetadas foi a Laboratório de Biologia Molecular Vegetal, apontado como possível alvo de atentados por centralizar pesquisas de vegetais transgênicos. Acredita-se que 90% do que se perdeu com o incêndio foi financiado por órgãos governamentais. O prejuízo foi de quase US$ 1,5 milhão. Em razão da destruição de parte do prédio e do comprometimento de equipamentos, o trabalho de pesquisa está limitado no momento a cerca de 20% do habitual .

II - Conclusão

Quando o presidente Lula escutou os pesquisadores da Embrapa sobre transgênicos, reforçou para a sociedade brasileira, a importância de respeitarmos e valorizarmos o setor público de pesquisa e nossos cientistas. Essa demonstração, desencadeou, pelo menos, a curiosidade de estudar mais sobre transgênicos, a partir da perspectiva desse setor. Até então, esse tema era divulgado, principalmente a partir da perspectiva de organizações não governamentais, o que colaborou para que tivéssemos uma grande preocupação com a possível liberação dos transgênicos no Brasil em função das questões econômica, ambiental e relacionadas com o modelo tecnológico.

Ao estudar textos científicos do setor público nacional e escutar pesquisadores das nossas instituições públicas de pesquisa, pude perceber que alguns produtos transgênicos podem utilizar menos agrotóxicos, garantir a produção em regiões secas e produzir importantes produtos medicinais, e que não são tão perigosos como sempre foi divulgado amplamente. Surpreendente é o fato de algumas entidades internacionais gastarem dinheiro e tempo com o combate aos transgênicos no Brasil. Seus técnicos elaboram inúmeros documentos, o que pressupõe que tenham estudado pelo menos o mesmo tempo que venho estudando, ou seja, poucos meses, até mesmo para conhecer a argumentação de quem defende os transgênicos.

A comparação apresentada entre o arroz com resistência ao herbicida e a soja RR demonstram que se discute muito o método da transgenia, mas pouco se discute sobre a característica introduzida e seus efeitos, o que realmente pode ter implicações ambientais e econômicas, nos levando a crer que há falta de racionalidade na discussão sobre o transgênicos

O caso do incêndio ao laboratório da UFRGS, por mais que possa ter sido feito por um maníaco, é um caso de atentado contra o Estado, porque queimaram equipamentos comprados com dinheiro público e acabam servindo aos interesses daqueles que competem com a agricultura brasileira.

Há uma influência dos consumidores europeus sobre o debate no Brasil, todavia a situação européia é completamente distinta da nossa. O Brasil é um país com grande potencial agrícola, muitas vezes constituído numa ameaça aos países ricos. Se os brasileiros e instituições científicas, como a Embrapa, desejam trabalhar com a ciência para produzir seus transgênicos, só este país tem legitimidade para avaliar os riscos presentes desses produtos e decidir.

Os chineses, os indianos e os cubanos estão investindo estrategicamente na pesquisa com transgênicos. Essa deve ser, também, a estratégia de o Brasil garantir soberania tecnológica agropecuária e alimentar. Todavia, o licenciamento para a pesquisa como vem ocorrendo acaba tornando-se um gargalo para o desenvolvimento tecnológico brasileiro.

O exemplo do investimento da pesquisa com algodão Bt transgênico na China evidencia a importância da participação do setor público na aplicação dessa tecnologia, no barateamento da produção, e na quebra de monopólio. Portanto, essa tecnologia pode colaborar imensamente para a inclusão social e econômica de nossos pequenos produtores, desde que o setor público agropecuário tenha uma participação ativa no desenvolvimento de produtos voltados para a pequena produção.

O desenvolvimento de uma soja com resistênica ao glifosato pela Embrapa e inúmeras plantas com resistência à seca são duas demonstrações de que o processo de pesquisa com transgênico deve ser acelerado. Por um lado, se a Embrapa disponibilizar uma soja com resistência ao glifosato, o agricultor poderá optar por essa variedade e, ao comprar a semente, estará pagando royalties da patente e da cultivar para a Embrapa, diferentemente do que acontecerá se comprar uma semente da Monsanto, ou outra multinacional, pois nesse caso, pagará royalties da patente para a multinacional e da cultivar para a Embrapa. O que é melhor ? Dos royalties, pagar 50% para Monsanto e 50% para a Embrapa ? Ou pagar 100% para a Embrapa ? Por outro, se a Embrapa produzir plantas com resistência à seca poderá colaborar imensamente com o fortalecimento da pequena produção da região da seca brasileira.

Os casos em que a pesquisa com transgênicos está paralisada demonstram que "toda legislação que for exigente demais em matéria de pesquisa favorece os monopólios. Inviabilizar a pesquisa biotecnológica no país criando sucessivos obstáculos burocráticos, é garantir o monopólio para empresas como a Monsanto."

Na medida em que não agilizamos nossa pesquisa nacional com transgênicos, ao criarmos dificuldades para se obter as licenças para a instalação de experimentos em campo, perdemos o ano agrícola, e atrasamos a obtenção de dados experimentais e sujeitamos nossos pesquisadores a uma situação de insegurança com riscos de se perder plantas analisadas, anos de pesquisa e recursos já investidos nas etapas anteriores. Ao deixarmos de concluir os experimentos e, portanto, não patenteando nossos transgênicos, possibilitamos que outros pesquisadores de outros países, patenteiem, como o caso da banana na índia. "Não podemos aceitar que se mantenha inerte a pesquisa em OGM, no Brasil, enquanto nossos concorrentes desenvolvem a tecnologia e ganham a corrida para a qual temos condições de grande competitividade" . Portanto, a autorização para a pesquisa deve ter um rito diferenciado do rito do uso comercial, devendo ser desburocratizado e ágil.

O Brasil se vangloria da sua enorme biodiversidade, todavia não adianta apenas preservá-la, é necessário estudá-la e utilizá-la. Por exemplo, seria importante mapear os genes das diversas plantas da Caatinga, em busca de genes de resistência à seca, ou de plantas da Mata Atlântica, que expressam um conteúdo proteíco de alto valor nutricional que possam ser transferidos para nossos cultivares comerciais da cesta básica, como o milho, o feijão e o arroz. O que se conclui também que a transgenia não substitui, de forma alguma, o melhoramento convencional, ou seja, a seleção de plantas por cruzamento e retrocruzamento. A transgenia é apenas mais uma ferramenta que os melhoristas dispõem para introduzir características agronômicas importantes em casos específicos.

É importante também que os experimentos sejam realizados com todo o cuidado e monitoramento. Para não corrermos riscos de repetir o que ocorreu com as abelhas africanas, quando poucos indivíduos escaparam de um laboratório em Piracicaba e cruzaram com as européias já existentes no pais. Desse cruzamento resultaram as abelhas africanizadas, que causaram uma completa transformação na apicultura nacional e inúmeras vítimas.

Por fim, é necessário também incrementar o orçamento dos nossos centros de pesquisa e garantir que a pesquisa seja independente, ágil e voltada para a soberania e interesse nacional e a preservação do meio ambiente e a garantia da saúde de nossa população. O valor, por exemplo, da pesquisa citada anteriormente que desenvolverá três plantas com resistência à seca é muito baixo, principalmente, se comparamos ao efeito positivo que poderá causar à milhares de famílias de pequenos produtores brasileiros.


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