A Biotecnologia e a Bioindústria na China: uma experiência inédita de uma potência emergente

Leila Macedo Oda, Ph.D.
Presidente da ANBio
www.anbio.org.br

A biotecnologia é a grande prioridade mundial da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico deste milênio. A economia gerada pela biotecnologia é o novo referencial de crescimento da economia mundial. A economia gerada por produtos geneticamente modificados no mundo cresceu de 75 milhões de dólares em 1996 para 95 bilhões de dólares em 2000.

A China, grande potência mundial em desenvolvimento, com uma população de 1,3 bilhões de habitantes, é um dos países com maior crescimento econômico nos últimos 20 anos. O Governo Chinês reconhece que Ciência e Tecnologia são a força motriz que propicia o rápido e sustentável desenvolvimento econômico e para tanto tem se empenhado em apoiar o desenvolvimento da biotecnologia e sua industrialização como prioridades para o desenvolvimento econômico do país.

A Academia de Ciências da China e a Sociedade Internacional de Biossegurança organizaram no período de 10 a 16 de outubro de 2002 na cidade Beijing, o Simpósio Internacional de Biossegurança de Organismos Geneticamente Modificados. Durante o Simpósio, cerca de 300 cientistas chineses e de mais de 30 países apresentaram seus estudos sobre impactos ambientais, sócio-econômicos e sobre segurança dos OGMs, empregados comercialmente no mundo. Neste relatório procuraremos resumir parte desta notável experiência que tivemos a oportunidade de vivenciar, como únicos representantes do Brasil no evento e que inclui um resumo do elenco das apresentações realizadas no Simpósio, bem como visita a plantios de culturas transgênicas em algumas províncias chinesas, com a coleta de dados de pequenos agricultores sobre a experiência de 5 anos de plantio dessas culturas na China.

Prioridades do setor biotecnológico chinês:

As áreas prioritárias de investimento na China são a biologia básica, a biomedicina, a bioagricultura, a tecnologia bioambiental, a biodiversidade e a biossegurança. As tecnologias chaves são o genoma funcional, a proteinologia, os biochips, a engenharia de tecidos, animais e plantas como biorreatores, vacinas e fármacos geneticamente engenheirados, os diagnóstico e tratamento genético, a tecnologia transgênica de animais e plantas, os biopesticidas, os biofertilizantes e a biossegurança.

Características da biotecnologia chinesa:

A China é um dos países com maior concentração de biodiversidade e recursos genéticos do planeta, com um vasto território que varia entre zonas frias, temperadas e tropicais. A variabilidade topográfica e ambiental propicia grande riqueza biológica. De acordo com algumas estatísticas incompletas a China tem aproximadamente 0,26 milhões de genes de animais, plantas e microorganismos, incluindo mais de 30.000 espécies de plantas, 200.000 espécies de animais e 30.000 espécies de microoganismos. O continente asiático é importante centro de origem e de diversidade genética da maioria das culturas agrícolas como o arroz, a soja, o trigo, vegetais e frutas. A China dispõe hoje de um banco com cerca de 3.000 famílias chinesas catalogadas e relacionadas à maioria das doenças.

Atualmente a China conta com 200 grandes laboratórios de biotecnologia, subsidiados pelo governo, com mais de 20.000 pesquisadores. A maioria de suas universidades e possuem departamentos de biotecnologia e de ciências da vida.

A Biotecnologia na agricultura chinesa:

A tecnologia de hibridação de duas espécies de arroz é amplamente difundida em todo território, conduzindo a uma variedade internacionalmente utilizada. Obtidas pela biotecnologia moderna, a China já planta comercialmente seis plantas transgênicas, tais como algodão resistente a pragas, tomate longa vida, tomate resistente a vírus, pimenta doce resistente a vírus e petúnia com coloração alterada. A China tem em fase de desenvolvimento arroz modificado geneticamente onde 4 genes são inseridos ( resistência a infecção bacteriana, resistência a insetos e resistência a herbicidas ) que ela pretende começar a comercializar em no máximo dois anos, além de produtos de segunda geração como milho com elevado teor de lisina para uso como ração animal. Todos os produtos antes de serem liberados para plantio e comercialização são avaliados pela Comissão de Biossegurança da China, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia, conforme a Lei de Biossegurança do país.

A China atualmente é o segundo país com propriedade intelectual autônoma no campo da transgenia do algodão resistente a pragas e na produção comercial deste produto transgênico ( 2 milhões de hectares plantados em 2001 ). A China desenvolveu a procriação de vários animais transgênicos tais como porcos, carneiros, vacas, peixes, dentre outros.

No campo da biofertilização a China possui uma linha de produção de 10.000 toneladas de bactérias transgênicas fixadoras de nitrogênio, utilizadas na fertilização das principais culturas agrícolas da China. Cinco preparações microbianas transgênicas tais como vacinas animais e 3 biopesticidas em preparações microbianas com gene trans-Bt já estão sendo comercializados na China.

A Biotecnologia no setor farmacêutico chinês:

Existem cerca de 150 tipos de produtos biológicos farmacêuticos em fase de pesquisa clínica. Mais de 20 tipos de produtos farmacêuticos biológicos obtidos pela engenharia genética, tais como o interferon, já estão em comercialização. No ano de 2002 as vendas do setor farmacêutico totalizaram mais de 3 bilhões de dólares, o que representa mais de 100 vezes o montante dos últimos 14 anos no país.

A Biotecnologia no meio ambiente e na geração de energia:

O governo chinês ainda não introduziu a biotecnologia no processo produtivo do álcool, mas as pesquisas na produção do bioquerosene já estão bastante avançadas, bem como a aplicação da biotecnologia no controle da poluição ambiental com o uso de microorganismos geneticamente modificados nos processos de biorremediação.

Impactos do uso de culturas transgênicas na China:

Trabalho realizado pela equipe do Dr. Jikun Huang, da Academia de Ciências da China conclui que a adoção da biotecnologia agrícola na China tem levado a significativo impacto positivo, trazendo benefícios econômicos e para a saúde, sobretudo de pequenos agricultores. A pesquisa apresentada durante o Simpósio de Biossegurança em Beijing resulta da análise no período de 3 anos do impacto do algodão Bt em 283 fazendas nas províncias de Hebei e Shandong.

A introdução da transgenia na cultura do algodão na China se deve a três fatores principais limitantes da agricultura chinesa:

  • crescente uso de pesticidas devido ao aumento de resistência na cultura e conseqüentemente elevação do custo de produção

  • elevada toxicidade dos pesticidas utilizados, gerando grande número de casos de intoxicação e até a morte dos trabalhadores rurais
  • elevada degradação ambiental devido ao grande uso de pesticidas e a erosão dos solos cada vez mais inférteis

Os estudos de Huang demonstraram que os agricultores que utilizaram variedade de algodão Bt tiveram uma produtividade entre 6 a 10% maior do que os cultivos de algodão convencional. Atualmente estão sendo desenvolvidas novas variedades de algodão Bt que darão uma produtividade ainda superior as que atualmente estão no campo.

No que diz respeito ao uso de pesticidas, as fazendas de algodão transgênico estudadas apresentaram uma redução de 24 a 63 Kg por hectare no uso de pesticidas. Embora o custo das sementes do algodão Bt seja superior ao das sementes convencionais, o custo total de produção com o cultivo Bt é significativamente menor (representando um lucro de 170 dólares/hectare, quando comparado com a lavoura convencional) do que com o algodão convencional, particularmente devido a redução no uso de defensivos agrícolas e na redução do tempo de trabalho nessas lavouras.

Dados semelhantes foram apresentados pelo Dra Linda Hall da Universidade de Alberta do Canadá que avaliou em seu estudo os impactos ambientais da canola resistente a herbicida naquele país. Seus estudos demonstraram que a introdução da canola transgênica reduziu em 6.000 toneladas/ano o uso de herbicidas e propiciou uma menor erosão e uma maior fertilidade do solo. Foram observados raros efeitos negativos devido ao fluxo gênico da variedade de canola transgênica, sem conseqüências ambientais relevantes que justificassem não optar pelas culturas transgênicas.

Com relação ao número de envenenamentos dos trabalhadores rurais, os estudos do Dr. Huang demonstram que 500 trabalhadores morrem por ano de envenenamento e entre 85-95 se contaminam diariamente com pesticidas na China. O percentual de trabalhadores envenenados nas lavouras de algodão Bt no ano 2000 foi de zero, enquanto que nas lavouras convencionais 30% dos trabalhadores foram envenenados naquele ano.

Conclusões e perspectivas da biotecnologia moderna na China:

A adoção da biotecnologia moderna na China nos últimos 5 anos tem demonstrado que a biotecnologia tem ajudado sobretudo ao pequeno agricultor, reduzindo os custos de produção, diminuindo problemas de saúde, minimizando problemas ambientais derivados do processo agrícola, elevando a produtividade e aumentando o ganho econômico global do país.

A projeção de cenários feita pelos cientistas chineses aponta para um situação bastante favorável da economia chinesa para o ano de 2010, onde a estimativa de ganho econômico neste setor chegue a 5 bilhões de dólares ao ano, considerando apenas a prospecção dos ganhos do setor agrícola com as culturas de algodão e arroz transgênico.

Como desafios a serem enfrentados encontram-se a percepção pública negativa para a plena adoção desta tecnologia, sobretudo nos países para os quais a China exporta e a necessidade de serem aprimorados os procedimentos de biossegurança, de modo a garantir a preservação da megabiodiversidade e o desenvolvimento sustentável do país.

Como prioridades de investimento no setor a China visará o melhoramento de microorganismos para maior produtividade agrícola, o uso de microorganismos geneticamente modificados para descontaminação ambiental, o desenvolvimento de culturas transgênicas mais produtivas, de culturas agrícolas com maior teor nutritivo e o desenvolvimento de vetores transgênicos para o controle de pragas agrícolas e doenças humanas, além é claro de um forte investimento na produção dos biofármacos e das vacinas recombinantes.


©2001 ANBio - Associação Nacional de Biossegurança.
All rights reserved.