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O
Globo On Line
Data
: Sexta-feira, 2 de agosto de 2002
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Fatos
e mitos
ALUIZIO
BORÉM e ROBERTA JARDIM MORAES
As
possibilidades de transformação gênica das
espécies vegetais utilizadas como alimentos pelo homem
são enormes: arroz rico em vitaminas, tomate contendo
anti-oxidantes benéficos à saúde humana,
amendoim sem proteínas alergênicas, bananas contendo
vacinas, soja com óleo mais saudável para a dieta de
pacientes cardíacos, etc. Enquanto a maioria dos cientistas
percebe grande potencial de melhoria dos alimentos com a
biotecnologia, parte do público, manipulado por ONGs vestidas
de defensoras do meio ambiente, ainda se sente insegura com estes
novos produtos.
A
ansiedade do público tem, entretanto, diminuído com o
melhor entendimento da tecnologia. Os principais receios dos
céticos são o risco de escape gênico, isto
é, risco dos transgenes se espalharem no meio ambiente por
cruzamento natural entre as variedades geneticamente modificadas e
seus parentes silvestres, tornando-as difíceis de serem
controladas. Finalmente, alguns temem que os alimentos geneticamente
modificados possam conter alguma substância que promova
reações alérgicas. Estas e outras questões
da segurança destes produtos são exaustivamente
analisadas antes da liberação de qualquer um deles para
o plantio e consumo.
O
Brasil não pode se render à alienação
tecnológica e continuar utilizando tecnologias ultrapassadas
que contribuam para a poluição dos seus férteis
solos com inseticidas e outros defensivos agrícolas altamente
residuais. Excluir os produtores brasileiros das novas tecnologias
que são seguras, e que apresentam vantagens ecológicas,
é um desserviço à agricultura brasileira.
É
importante que os produtos desenvolvidos pela biotecnologia
continuem sendo rigorosamente avaliados quanto à sua
segurança para a saúde e para o meio ambiente, e
aqueles que forem considerados seguros sejam disponibilizados para o
produtor. Cientistas como o dr. Norman E. Borlaug, Prêmio Nobel
da Paz em 1970, por suas pesquisas com variedades semi-anãs de
alto rendimento, especialmente importantes para os países em
desenvolvimento, defendem a utilização de OGMs. James
C. Watson, também laureado com o Prêmio Nobel pela
descoberta da estrutura do DNA, defende a adoção das
variedades geneticamente modificadas, como forma de reduzir a
aplicação de defensivos agrícolas na agricultura.
As
universidades e os institutos de pesquisa nacionais precisam do
apoio público e legal para o desenvolvimento de variedades
adaptadas às condições brasileiras. Estas
não só aumentarão a competitividade do produto
brasileiro no mercado internacional, mas também
reduzirão o uso de defensivos agrícolas nas lavouras.
O
uso da biotecnologia para o desenvolvimento de novas variedades
está promovendo uma revolução na forma de se
produzir alimentos mais seguros para o homem e com menor
agressão ao meio ambiente. Frustrar o avanço
tecnológico quando ele é seguro e contribui para a
preservação ambiental é uma agressão
à inteligência humana. A primeira variedade assim
desenvolvida foi colocada no mercado americano em 1994, após
anos de testes quanto à sua segurança. Não
existe nenhuma evidência de que as variedades geneticamente
modificadas já em estudo por mais de 12 anos e em cultivo por
mais de 8 anos em outros países façam mal à
saúde humana ou ao meio ambiente. Os resultados na verdade
indicam o contrário. Muitas destas variedades são mais
saudáveis para a alimentação e seguras para o
meio ambiente.
Após
o desenvolvimento de uma nova variedade com o auxílio da
biotecnologia, ela é submetida a análises laboratoriais
em uma primeira fase, onde se analisa sua composição
química para um grande número de componentes. Caso a
variedade seja considerada segura, ela é então
submetida a testes em condições controladas.
Finalmente, as variedades consideradas seguras para a saúde
humana e para o meio ambiente são testadas em
condições de campo sob supervisão dos
órgãos competentes. A liberação de uso
comercial e consumo só ocorre após exaustiva
análise do material.
Após
avaliar a segurança da soja tolerante ao herbicida Roundup
para o consumo humano e para o meio ambiente, e tendo concluindo que
não havia quaisquer riscos, a CTNBio emitiu um parecer
conclusivo favorável à desregulamentação
desta variedade. O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e o
Greenpeace obtiveram, entretanto, na mesma época uma liminar
concedida pelo juiz da 11 Vara Federal de Brasília, proibindo
à União autorizar o plantio comercial da referida
cultivar. Em 26 de junho de 2000, o Juiz Dr. Antônio Souza
Prudente, proferiu sentença obrigando o governo a exigir a
realização do estudo de impacto ambiental, embora a
CTNBio já houvesse analisado este assunto e considerado este
procedimento dispensável no caso específico da soja. O
processo ainda está em andamento.
A
ofensiva ambientalista contra os transgênicos no Brasil
é altamente incoerente, uma vez que as variedades GM
atualmente disponíveis resistentes a pragas e doenças
contribuem para a redução no uso de defensivos
agrícolas (inseticidas e outros). A adoção
destas variedades em outros países resultou em marcante queda
no volume de pesticidas aplicados nas lavouras, resultando em menor
poluição ambiental e menos resíduos nos
alimentos. Estimativas de redução na
aplicação de defensivos agrícolas em outras
culturas são igualmente impressionantes.
A
redução no consumo de defensivos agrícolas nos
EUA e na Argentina, países que amplamente adotaram esta
tecnologia, já inclusive resultou no fechamento de
fábricas de inseticidas. Isto ajuda a entender a justificativa
de algumas indústrias de defensivos, que não atuam em
biotecnologia, a apoiarem algumas ONGs contrárias a variedades
geneticamente modificadas.
ALUIZIO
BORÉM é engenheiro agrônomo; ROBERTA JARDIM
MORAES é advogada.
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